....
Frei Lucílio, a personificação do desapego das coisas materiais, propôs esta pergunta:
- Irmão Francisco!... Por Deus, poderia nos expor o que constitui caridade para com nós mesmos?
O Poverello de Assis, meditativo e manso, respondeu com alegria:
- Esta caridade que dizes é , por excelência, a mais preciosa, não porque desejamos desfrutar desse bem estar celestial, prém, para assegurar o nosso trabalho com os outros. Se um soldado precisa de um treinamento com as armas para lutar e vencer o inimigo, muito mais os soldados de Deus, que somos nós, por misericórdia. A caridade para com nós mesmos é no sentido de prepararmos pensamentos, ideias e sentimentos para fazer melhor o bem ao próximo. Estamos em regime de urgência, preparando-nos para falar com dignidade, trabalhar com discernimento e ajudar por Amor.
Quem ainda não educou a si mesmo, como poderá trabalhar na educação colectiva? Quem ainda não perdoou, como poderá falar e ensinar o valor do perdão? Quem ainda não se desprendeu dos bens terrenos,como poderá pedir aos outros esse desprendimento? Quem ainda não ama a Deus e a si mesmo, como mostrar às criaturas que o Amor é a própria felicidade? Primeiro , temos que sentir e vivenciar coisas que pretendemos ensinar.
A caridade para com nós mesmos é nos desejar todo o bem possível, sem egoísmo, contrariando certos instintos inferiores, através de uma disciplina activa e constante. A caridade, nascida no coração da criatura, é fruto do esforço próprio, para que depois surjam as bençãos de Deus e de Cristo. Toda subida exige esforço, todo esforço carece de inteligência e toda a inteligência somente encontra proveito, quando norteada pelo coração, ligado às leis naturais.
Frei Arlindo, o padrão da alegria, deu sinal que desejava falar, e disse, na mesma sequência do seu companheiro:
-Desejaria saber, Pai Francisco, acerca da caridade para com os outros.
Francisco de Assis, sem demonstrar cansaço , estampou em sua feição certo contentamento, e expôs com paciência:
- A caridade para com os outros é fruto de longas experiências, porque a Caridade verdadeira é filha do Amor. Não exige, para não perder a alegria; não ofende, para não perder a paz; não violenta, para não perder o equilíbrio; não é maledicente, para não frustar a bondade; não arde em ciúmes, para não aborrecer a ninguém, não duvida das coisas de Deus, para não esquecer a esperança. Cumpre o seu dever no que foi chamada para não se submeter ao tribunal da consciência.
A caridade para com os outros começa no respeito aos direitos alheios, ajudando todas as criaturas onde quer que seja, dentro das nossas forças. E ela nunca reclama, nunca maldiz e nunca se revolta; nunca deseja mal, nunca pede para si, nunca injuria e nunca se entristece. Ela é um Sol de Deus, que nunca se apagará.
Frei Rufino, um dos irmãos mais devotados, arguiu com presteza:
- Pai Francisco!... Por gentileza, poderia o senhor nos dizer o que é desprendimento verdadeiro?
O irmão Francisco, refeito em Cristo, das energias gastas na conversação e com as respostas aos companheiros , sentenciou com proveito:
- Frei Rufino!... Desprendimento é não se prender a coisa alguma, pois Espírito nenhum deseja ser preso. Até os próprios animais não se sentem bem quando aprisionados. Todos queremos ser livres. A liberdade é, pois, amada por todos e por tudo; não obstante, a vida nos condiciona a determinadas psisões. Enquanto não despertamos para a realidade, seremos escravos da própria ignorância.
O Cristo chamou um punhado de homens para segui-lo mas desejou que eles fossem livres, que se libertassem de peias terrenas, porque Ele mesmo disse com propriedade:" Onde está o tesouro aí estará o teu coração."
Desprendimento não é jogar fora os bens terrrenos, deles dispondo sem consciência do que se está fazendo, pois quem assim procede confunde deslexo com desprendimento. Haverá de sobressair em nós o bom senso. Existem várias modalidades de desprendimento, dependendo aí de quem está se desprendendo, qual a sua posição diante do mundo e frente à humanidade. Depende ainda do que estamos falando e do que pretendemos fazer.
Pode perfeitamente existir rico desprendido e pobre usuário, porque a ganância nasce dentro da criatura para as coisas de fora. E, portanto, a ignorância que tudo move, por não deixar que o ignorante conheça as leis de Deus, que não se esquecem de quem trabalha e confia nas forças superiores.
Desprendido é aquele que sabe dar, porque é dando que recebemos. No entanto, dar também é ciência, pois quem não sabe dar fica sempre devendo. Desprendimento é sempre o clima do sábio e do santo, senão do homem altamente inteligente. Essa virtude é a nossa base de viver, porque vivemos em Cristo, para que Deus viva em nós. ....
.......
De a obra de Frisco de Assis por Miramez
Bem vindos a este cantinho onde espero partilhar conhecimento, amor, fé e esperança. Muita paz
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário